Sobre fotografar (e sentir) a alma de uma mulher.

“A mulher é uma substância tal, que, por mais que a estudes, sempre encontrarás nela alguma coisa totalmente nova.” – Leon Tolstói –

Há tempos quero relatar e compartilhar com você uma parte importante do meu caminho como “fotógrafa ativista” no universo feminino.  Sendo hoje uma data de importância simbólica para nós mulheres – “Dia Internacional das Mulheres” – senti que fazia sentido falar sobre isso. Descrever aqui sobre como eu enxergo esse universo feminino dentro da minha missão como fotógrafa.  Sobre como cada mulher que retrato costura em mim um novo retalho, dá a minha vida um novo sentido e ao meu caminho mais suavidade e novas possibilidades. Quero te convidar para minha história, para nossa história como mulheres. Quero que você faça parte desse caminho de sororidade*, de empatia e admiração mútua. Quero mais do que clientes, quero ter cada uma como alguém que saiba que pode contar comigo para de fato “se enxergar” como é e se libertar daquilo que não é. Quero que juntas façamos algo significativo por todas nós mulheres. A minha parte não se resume em clicar. É sobre criar movimento a partir de uma imagem estática. Essa é a mágica que me move.

*A origem da palavra sororidade está no latim sóror, que significa “irmãs”. Este termo pode ser considerado a versão feminina da fraternidade, que se originou a partir do prefixo frater, que quer dizer “irmão”.

Neste dia quero dar à você a chance de refletir sobre o seu potencial, sobre o que é de fato ser mulher e sobre o que estamos fazendo a respeito disso. Não acredito que seja um dia para parabenizar, mas sim para que cada mulher mobilize outra mulher, para que se unam, para que se perdoem, para que juntas atuem de tal forma neste mundo que se façam dignas de serem parabenizadas umas pelas outras todos os dias. É um dia para se clamar por respeito. Neste dia te convido a pensar sobre o seu feminino, sobre a sua alma e sobre tudo que nela ainda adormece. Te convido para despertar, para se inspirar, para se transformar, para se curar e ser a cura. Neste dia quero te presentear com fotografias de minha autoria de mulheres incríveis* que calibram meu olhar e que irão merecer sempre minha admiração. Quero que através da publicação destas imagens e de todo caminho do qual elas fazem parte, você se sinta parte também. Quero apresentar à você uma forma diferente de retratar a sensualidade da mulher, indo além do que se espera, buscando aquilo que não se vê, que não se fala, mas que está lá, dentro de cada uma de nós. Não é sobre clicar, nem sobre apenas olhar, é sobre imagens que nascem da empatia entre duas mulheres e que nos despertam mutuamente. Eu me vejo em cada uma e cada uma se entrega com intensidade e verdade às minhas lentes. E o caminho e o resultado eu te mostro agora.

* todas imagens são de minha autoria e autorizadas para uso neste post.

Sou uma mulher cercada de mulheres incríveis, e, toda vez que penso na luta de cada uma e na sua beleza, sinto um impulso muito forte de presenteá-las. Sempre soube que seria através da minha arte, da fotografia, mas me questionava sobre o formato. Minha primeira idéia partiu do óbvio: oferecer a cada uma um “ensaio sensual”. Mas não queria fazer o que todos estão fazendo, pois o formato da maioria que encontro por ai – de certa forma – me incomoda. Decidi então buscar outro caminho, começando por onde normalmente começo: sentindo, questionando e pesquisando.

Comecei olhando o trabalho de diversos fotógrafos, mas, de repente percebi que aquilo não iria me dar nenhuma resposta. A grande maioria dos fotógrafos conhecidos dentro desta área são homens e eu, definitivamente, não queria o olhar masculino sobre o tema. Queria, precisava ouvir mulheres! Então, num determinado dia, por impulso, perguntei à algumas poucas amigas: “Quando você pensa em sensualidade o que vem à sua mente?”. Percebi então que as respostas foram muito parecidas, de certa forma até padronizadas, “robotizadas”. Muitas responderam que a sensualidade está na forma de olhar e nos gestos, sendo que o olhar ganhou em disparado. Foi então que pensei: “Bom, se a sensualidade está no olhar, significa então que as mulheres cegas não podem ser sensuais? É isso?”. Bom, isso me incomodou muito! Simplesmente porque não era justo! As definições sobre o que é ou não sensual que a mídia nos vende ou insinua, exclui muitas mulheres que simplesmente não se encaixam nelas. É cruel! É falso! É inaceitável! Precisava entender como desconstruir isso.

Sensualidade às cegas.

Passei horas pensando na questão da sensualidade no universo daquelas mulheres que não enxergam. Eu precisava entender o que seria então a sensualidade para uma mulher cega. Sim, porque ela jamais responderia “o olhar”, certo? Aliás, ela jamais responderia nada relacionado à aspectos visuais, que é o principal referencial de todas as mulheres que possuem visão.

Consegui com uma amiga o contato de uma mulher com deficiência visual e entrei em contato. Conversamos de uma forma franca e leve por muitas horas. Ela me despertou e me inspirou, pois enxerga com a alma e é isso que eu busco retratar toda vez em que me disponho a fotografar pessoas: sua alma, sua história, sua essência, sua luz e – por quê não? – suas sombras. O resultado foi que a partir deste encontro o projeto assumiu um caminho completamente diferente do que originalmente foi pensado.

Pesquisa.

A sensualidade é MUITO mais COMPLEXA e diversa do que aquilo que a mídia “vende” dentro da nossa sociedade rasa. Além disso, a sensualidade é APENAS uma pequena fração do que define uma MULHER, do que define o FEMININO.

A partir dessa reviravolta, decidi mergulhar no feminino de corpo e alma. Li vários artigos sobre a mulher na era vitoriana, na era renascentista, sobre a expressão da sensualidade em cada um dos períodos. Busquei referências nas pinturas e esculturas dessas épocas para entender como a mulher era retratada, entendendo assim também os mitos e o impacto destes nesta retratação artística do feminino. Essa viagem ao mundo artístico me fez perceber de onde – provavelmente – vem as famosas poses “sensuais”. E isso aumentou ainda mais meu incômodo, pois a grande maioria dos artistas nessas épocas eram homens, ou seja, o arquétipo feminino parte de uma visão quase que exclusivamente masculina. Com isso, pra mim, as definições e a forma como nos relacionamos com a nossa sensualidade perdem sentido. Precisam ser questionadas e reformuladas. 

Questionário.

Com tantas dúvidas e tantas hipóteses criadas, precisava ter algo concreto para saber exatamente para onde “caminhar”. Desenvolvi então um questionário relativamente extenso somente com perguntas abertas. A maioria respondeu com muita verdade, sem medo de estar “errada” ou de ser julgada.

Através do questionário busquei levá-las para um ensaio teórico realmente intimista. Queria entender como conseguem diferenciar o que é sensual do que é sexy, saber como elas vivem a sua sensualidade, se elas se enxergavam como mulheres sensuais e como seria se elas decidissem posar para um ensaio sensual.

Em uma das questões pedi que definissem sensual e sexy. Uma das respostas me marcou, onde a participante dizia: “Acho uma imagem sensual quando há  beleza plástica na imagem, sem vulgaridade. Percebo que toda mulher tem um poder sensual enorme, independente de qualquer coisa. Uma imagem sensual provoca um interesse maior em observar, em atentar aos detalhes pra se chegar ao todo, ao sentido que a imagem procura/ou procurou naquele momento transmitir, ou mesmo ao que a imagem transmite à mim; resumindo, uma imagem sensual é algo mais rico a se admirar.  Já a sexy, apesar de também ter uma beleza plástica, não tem muito o que se desvendar, pois já está ali, é direta, conota o sexo, tão somente isso.”

Muitas responderam que conseguem claramente diferenciar o que é sensual do que é sexy e descreviam o que é cada coisa, na opinião delas. De repente, quando precisavam descrever como seria um ensaio sensual eu percebia a confusão. Simplesmente porque a sensualidade pode surgir sempre que qualquer sentido for despertado a partir da forma com que nós expressamos o nosso sentir. O sexy, muitas vezes, encontra espaço no meio dessa explosão de sentimentos despertos pela sensualidade. Não é algo controlável, nem dirigível, é espontâneo. A sensualidade da mulher é algo que nem sempre é tangível e nem sempre é sentida da forma que deveria ser. A sua forma de ser sensual é somente sua e a forma de despertá-la também é única. A sua sexualidade, a sua sensualidade, a sua história, as suas crenças, os seus sonhos e a sua alma fundem-se e então surge aquilo que realmente faz de você a mulher incrível passível a ser revelada: surge o seu FEMININO.

Quando questionadas sobre se acharem sensuais, 10 disseram que não. Mas, mesmo sendo uma minoria, senti uma tristeza profunda diante desta afirmação dessas mulheres que eu conheço e que são incríveis. Me questiono o que as faz acreditar nisso? Quem – ou o quê – tirou delas a capacidade de se sentir? Sim, porque se elas pararem por alguns segundos e se tocaram, se sentirem, dançarem, fizerem qualquer coisa que liberte as suas almas, sua sensualidade e todo o conjunto que faz delas mulheres incríveis irá EXPLODIR! Isso porque o feminino só desperta se nós estivermos, de fato, acordadas, vivas, livres, conectadas com a nossa história.

Todas as mulheres tem essa FORÇA! Mas a mídia e os portfólios de ensaios “sensuais” as levam a acreditar que não são “o tipo de mulher” que veem nas imagens ou que, ao posarem, PRECISAM ser como aquelas mulheres que viram. Precisam nascer photoshopadas. Logo, sugere-se, que sendo quem são, não são sensuais o suficiente para estarem ali. Sentem-se incapazes de fazer aquelas poses dirigidas, de se expor com aquelas lingeries incrivelmente SEXIES ou de lançar aqueles olhares extremamente intimidadores para um(a) fotógrafo(a) desconhecido(a). Imagina então fazer tudo isso em um estúdio ou qualquer outro local onde você nunca esteve antes? Assustador.

Assustador também é ver o “mercado” fazendo isso com essas mulheres. Vendendo seus produtos enlatados e entitulados “ensaio sensual para mulheres normais”. Não, você não é normal! Você é incrível! Você é única! Outros profissionais de fotografia defendem que se a mulher pretende ser vista como ousada, deve se despir. Mas quem disse que pra ser sensual precisa ser ousada? Quem disse que a força do feminino só aparece diante da nudez? Quem disse que o seu poder está no seu corpo nu? Não! Não é sempre que está! Vai depender da sua história, da sua luta, das paredes que você precisa derrubar dentro de você. Se você olhar fotos de mulheres fortes que você admira, mesmo vestidas, vai conseguir identificar nelas o feminino, a sua força e – muitas vezes – um sopro de sensualidade na imagem. Faça esse exercício. 😉

É simples. O feminino aparece quando entendemos a força que temos como mulher, mesmo que o nosso traje seja uma armadura, como o das guerreiras que um dia lutaram pelo nosso direito de ir ao campo de batalha como os homens de sua época. Então, não importa como, lute como uma mulher que compreende a importância do seu papel na nossa sociedade. Seja uma guerreira e que a sua espada traga luz, amor e justiça sempre. A minha espada é a minha voz e o meu olhar, é assim que eu luto e é assim que eu sinto que venço todos os dias em que sinto que – de alguma forma – impulsionei outra mulher a despertar.

E você? Qual é a sua espada? Qual é a sua maior batalha nessa jornada sendo mulher? O que você sente ao olhar no espelho? Onde estão os seus medos? O que te move? O que se move por você?

Descubra-se. E, se precisar de ajuda, saiba que estamos na mesma busca. <3

“Suponho que me entender não seja uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Toca ou não toca.” – Clarice Lispector.

2 Replies to “Sobre fotografar (e sentir) a alma de uma mulher.”

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