2020 não passou.

O tempo não passa, ele nos perpassa. Chronos devora seus filhos, o tempo regido por esse Deus é implacável com todos nós, seus súditos.

Queremos acreditar que o tempo passa e leva o passado mal digerido. Ilusão. A onda limpa a praia, mas a maré regorgita o que ao Oceano não pertence. Nada, nem o tempo, é capaz de arrancar do sujeito suas dores e amores. Passado não passa, sedimenta.

O tempo de Chronos segue somando os segundos, as angústias e as conquistas. Kairós, outro Deus do tempo, é quem vem trazendo o tempo presente, das oportunidades que só podem ser laçadas por aqueles que não se iludem com a passagem ou com o controle do tempo.

O tempo de Kairós passa mais rápido. Não possui ponteiros, mas asas. Quando o agarramos é quando suspiramos: “Nossa! Nem vi o tempo passar!”. Kairós te dá a liberdade de escolher o que fazer com seu tempo. Agarre o topete de Kairós antes que ele se afaste, mas para isso suas mãos precisam estar livres e seus olhos abertos. Kairós é para os desapegados.

2021 está começando agora, mas não é um caderno em branco. Todos carregamos nossas biografias a cada novo ciclo. O que vivemos até aqui é precioso demais para ser ignorado. Somos o que somos porque somamos o que fomos. Somos como rochas que vão recebendo camadas e camadas ao longo de muito tempo, vão sedimentando e sendo esculpidas pelas águas, como somos pelas nossas emoções. Uma rocha áspera é uma rocha seca. Um ser humano também.

É preciso deixar nossas águas fluirem pra que possamos ser lapidados, transformados. É preciso deixar fluir, deixar ir.

Chronos te come. Kairós te convida pro agora. E então, qual tempo você escolhe viver em 2021 ?

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