“A palavra “enteógeno”, que significa, literalmente, “manifestação interior do divino”, deriva duma palavra grega obsoleta da mesma raiz da palavra “entusiasmo”, e se refere à comunhão religiosa sob efeito de substâncias visionárias, ataques de profecia e paixão erótica.” Fonte: Wikipedia.
A Pandemia, ocasionada pelo surgimento de um vírus de aproximadamente 120 nanômetros, está sendo enteógena no sentido dos efeitos colaterais do vírus simplesmente pelo fato de existir e de representar um risco à nossa existência. Substâncias enteógenas nos levam pra dentro, nos conectam com a nossa essência divina onde coexistem deuses e diabos dentro de cada um de nós. Durante a ação de um enteógeno – por exemplo o Ayahuasca – vivemos em poucas horas uma montanha russa, indo do céu ao inferno, dançando e morrendo. Exatamente como vejo a Pandemia atuando em cada um de nós e também no coletivo. Nos mostrando, na prática, que cada vida importa. Provando, na prática, que o que está dentro está fora e vice-versa. Está sendo catártico PRA TODOS, até mesmo – e talvez principalmente – para aqueles que a negam.
O ser humano, devido ao desenvolvimento exponencial de novas tecnologias e distrações, estava vivendo um período de extrema arrogância. Tão distraídos de si mesmo que mal se deram conta de que o Covid-19 veio para nos salvar de nós mesmos. O Covid-19 surgiu pra nos “tocar” pra casa, em todos os sentidos. Mas o vírus desconhece o quão complexo pode ser o ser humano. O ser humano se prolifera, mas também elimina sua espécie e a si próprio. O vírus só se prolifera, sendo eliminado apenas através da ação do homem. Sua força não é individual, é coletiva. Seu objetivo é viver.
E qual é o nosso objetivo como espécie, como sujeitos? Talvez a Pandemia tenha vindo pra nos perguntar isso, assim como nos perguntavam quando éramos crianças ou adolescentes: “O que você quer ser quando crescer?”. No caso a pergunta é: “O que você vai fazer pra que sua vida valha a pena AGORA?”
Sinto muito pelas vidas que PERDEMOS, sinto muito pelas mortes que vivemos. Não vivenciei a perde de ninguém nesta Pandemia. NEGO, apesar disso, que a Pandemia não existe, NEGO que é só uma gripizinha, NEGO que implorar para que as pessoas permaneçam em isolamento social seja um exagero. NEGO que quase 200 mil mortes registradas no Brasil entre março e dezembro de 2020 sejam em vão. NEGO que quase 2 milhões de mortes no MUNDO desde que o Covi-19 começou sua missão não impactaram na vida de todo MUNDO.
Mas entendo aqueles que acreditam nas mentiras que contam pra si mesmos. São Egos frágeis, infantis e alucinados. Pessoas que não conseguem lidar com a realidade, que temem “sumir”, que sentem que a sua existência é superior, que acreditam que o vírus veio ajudá-las na tarefa de eliminar do mundo todos aqueles que não refletem suas crenças. Só tem um problema: estar nesse grupo não te protege das consequências do seu egocentrismo. O tempo dirá. Eu acredito na justiça do tempo.
Aqueles despertos e humanos, nos cabe sermos resistentes não ( somente ) ao vírus que vem de fora, mas também resistentes às nossas próprias sombras. Resistir ao desejo de organizar eventos grandes sem tomar os devidos cuidados. Resistir ao desejo de sair por ai sem máscara, como se fosse Deus. Resistir ao desejo de expor seus amigos e familiares ao risco usando como “desculpa” as saudades. Vale a pena morrer pra matar as saudades, colocando assim a vida de quem amamos em risco?
O isolamento assusta. Talvez muitos de nós nunca tenham ficado tão isolados, a não ser nos castigos de infância. A diferença é que nos castigos onde nossos pais nos isolavam nós éramos o vírus e, talvez por isso, sempre dávamos um jeito de fugir. Desta vez é o vírus que nos obriga a nos isolar. Não compreendemos a lógica. Se não fizemos nada de errado, por que precisamos ficar isolados? Do que estou me escondendo, se eu não vejo nada que me assuste do lado de fora? Como explicar isso para uma criança ou para um adulto que ainda não o é de fato. Se você tem medo, você está desperto(a). Que bom! O medo adulto nos mantém vivos.
Olhar pra dentro assusta. De repente estamos, os despertos, isolados. Estávamos acostumados a ouvir de fora o tempo todo o que somos, o que precisamos ser, o que desejavam que fôssemos e quando. Então o tempo começou a passar mais devagar. Os imperativos sociais diminuíram. Se tornou desafiador encontrar culpados. Maratonamos no Netflix, nos perdemos entre dezenas de Lives e percebemos uma angústia crescendo dentro de nós. Usamos as mídias para nos distrair, mas o excesso é um vírus silencioso. Aos poucos, sem querer, entramos em contato com as nossas sombras. Muitos não aguentaram. O aumento no número de suicídios, divórcios, violência contra mulheres e crianças, mortes por overdose foi surpreendente. Autoconhecimento não voluntário pode matar. Se conhecer não é romântico, é doloroso, mesmo que libertador pra quem dá conta. Acompanho nas redes sociais cada vez mais jovens ensinando sobre viver como sábios gurus. No começo eu acompanhava completamente anestesiada, hipnotizada através das técnicas de persuasão que eles aprendem a usar nos cursos online de Marketing Digital ou Fórmulas Mágicas de Lançamento. E funciona! Funciona se você estiver desconectada ou desconectado de você mesmo. Eles estão perdidos, presos à uma bóia de salvação tentando acreditar que sabem o caminho. Quando os vejo hoje em dia, após quase um ano vivendo em isolamento voluntário, vejo crianças assustadas precisando serem vistas pra terem certeza que não deixaram de existir. E tudo bem. Cada um está fazendo o que pode. Eu mesma usei a mesma estratégia até um ou dois meses atrás. E, de fato, me ajudou por um tempo. Mas em algum momento Alice precisa acordar.
Hoje me pergunto: “Quando tudo isso acabar, o que vai sobrar? Será que vai sobrar humanidade? Será que vai sobrar esperança? Será que vai sobrar amor? Será que tudo isso vai, de fato, acabar?
Não sei as respostas, apesar de ter muitas perguntas. Mas de uma coisa eu sei: eu JAMAIS teria conhecido tanto a Maira se não estivesse vivendo de forma realista essa pandemia. Ela veio pra raspar o meu verniz, me deixar exposta, nua e apaixonada por quem me tornei até aqui. Compreendi que não é sobre o que eu faço, mas sobre o que eu me torno a partir de como faço o que faço. Compreendi que a maior riqueza que eu tenho hoje sou eu e minha família que mora comigo. Sozinha e não vista, talvez, eu não tivesse dado conta.
As coisas só acabam quando terminam. Esse relato ainda não terminou, porque a pandemia ainda está acontecendo. Enquanto eu escrevo, pessoas estão entubadas, pessoas estão dando o último suspiro, pessoas estão sendo enterradas sem poderem ser veladas. Enquanto vivo, muitos morrem. E eu NEGO que essas vidas tenham sido em vão. TODA vida importa.
Então se cuide e, se der conta de ser humano, fique em casa.
Faça sua vida valer a pena! Faça a humanidade permanecer!
