ANDRÓGENA

Sinto, sonho. Sonho mais quando durmo mais.
O que será que precisa de tanto tempo pra se mostrar?
Se o sonho é do sonhante, por quê ele nos escapa?

Ontem eu o lacei. Um corredor extenso e, no seu fim, um guichê.
Percebi uma fila, mas o caminho me parou. Olhei pro lado e vi um banheiro sem paredes.
Masculino e feminino flertando através de privadas e mictórios descaradamente integrados.
Pra que serve a privacidade? Por quê os corpos se separam?

Um ambiente andrógeno que me convidava. Há desejo, mas também há medo.  Medo de desejar?
Como seria para o mictório experimentar minha urina feminina? Ainda me julgaria passiva ou incapaz?
Talvez a ausência das paredes me liberta-se do possível constrangimento social. Ou talvez ele não exista.
Quando não há limites, não há do que se envergonhar, nem tampouco o medo de experimentar.

Mictório, microfone, falo. Por quê o microfone é fálico? O homem pode falar, a mulher não.
Símbolo do patriarcado, um caminho construído sob a fragilidade masculina. O falo é falho.
Uma realidade onde as mulheres tem sua voz abafada, calada, cortada. Não é um sonho.
Uma realidade onde a boca da mulher, sedenta de respeito e amor, engole microfones fálicos, que violentam seus lábios. O falo fala, a vulva grita.

Banheiros sem paredes, devaneios sobre microfones e mictórios. Atravessando o corredor onírico, chego em um guichê para comprar ingresso para a solidão. A peça – de certa forma – não era no palco, era ali mesmo no guichê. Um atrás do outro. Emudecidos, distraídos, solitários. Um sonho nostálgico onde não haviam smartphones em suas mãos, apenas suor diante do desconforto em escolher estar só estando com outros. Um hiato de almas. A solidão presente apesar da presença. O que busca quem escolhe assistir uma peça sobre solidão? A curiosidade, o medo ou o alívio?

O sonho muda de lugar sem uma transição coerente. Pulsa, muda, mostra. E eu sempre me pergunto: “o que ficou na ponte que eu não vi?”

Surge meu pai segurando um papel amarelado. Era sobre a separação dele e da minha mãe. Ele diz que se soubesse que iria fazer tão bem contaria um ano e meio antes. Um papel amarelado, um passado que amarelou, um casamento que desmantelou. Um ano e meio antes é quanto tempo no mundo dos sonhos? Um ano e meio, 18 meses. Na numerologia 18 se torna 9 que é quase 10. Seria um ciclo que se finda pra que outro possa começar? Eu tinha 9 anos quando isso aconteceu. Talvez ele não quisesse que tivesse terminado como e quando terminou. Ninguém quer que o amor acabe. Ninguém quer que algo morra.

Aos poucos sentia meu corpo, sentia que ia deixando a infância. De repente não lembro de mais nada. Não lembro do dia em que ele foi embora, nem tampouco de sentir tristeza. Talvez eu tenha escolhido esquecer pra não sofrer. Pelo menos não naquele momento. Mas talvez ali descobri a solidão. Seria a solidão a ponte? Um lugar vazio, apesar da casa ainda cheia de coisas pra anestesiar? O vazio não é a ausência, é a não presença daquilo que se deseja possuir. Não me importava o quanto me fosse dado, o que era mais precioso, senti como se tivessem tirado de mim. Precioso por que existia ou por quê eu queria que existisse?

O sentimento da solidão casa-se com o ódio, porque se me sinto só é porque alguém roubou de mim o que fazia com que eu me sentisse inteira. Mas será que eu realmente me sentia inteira? O que é ser inteira? Seria o banheiro andrógeno o símbolo da integralidade? Derrubar paredes. Descobrir verdades. Nomear ruídos.

Entra uma nova cena sem permissão. A vida continua, até mesmo no sonho.

Na cama, vestidos e dançantes sobre mim, dois homens e duas mulheres. Aos homens eu exigia nota 9,5. Para as mulheres era 8,5. Por que para os homens a minha exigência era maior? Por quê se espera sempre menos de uma mulher?

Meu pai nos dava mesada de acordo com a nota no boletim. As notas precisavam ser maiores que 7 e se ganhava o proporcional. A minha era sempre a menor entre os meus irmãos. Era minha bandeira de protesto. Contava à todos que eu não tirava as melhores notas por escolha, pois não queria fazer parte de um amor monetizado. Se é verdade? É minha verdade. Mas será que basta?

Cama, privada, mictório. Com tanta privacidade, como ter intimidade? O desejo do controle, o descontrole do desejo, o desejo de controlar o que o outro deseja.

O falo cala, a vulva sonha.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *