GALINHAS FELIZES, OVOS IMPERFEITOS.

Atenção para um retorno triunfal ao mundo dos textões falando sobre a constatação de que galinhas felizes produzem ovos “imperfeitos”. Preparem-se pra ficarem chocados com a minha constatação.

Não sou vegana e nem vegetariana, não gosto de limitar minha existência a tantos rótulos. Sou uma humana que muda os seus hábitos quando sente que precisam e podem ser mudados. Sempre reflito muito sobre o consumo de alimentos de origem animal porque eu tenho o privilégio de poder me questionar sobre qual mercado eu estou alimentando com o que eu me alimento. Então, essa semana, fui ao mercado e na hora de escolher os ovos vi uma caixa de ovos onde a publicidade na embalagem dizia: “ovos de galinhas felizes”, ou seja, criadas livres e quiçá ouvindo Mozart e recebendo Shiatsu. A caixa com 12 era bem mais cara que a dos ovos das galinhas infelizes criadas confinadas ouvindo o galo soprano. Em um primeiro momento só achei divertida a estratégia de atração da publicidade e, no impulso, comprei feliz os ovos das galinhas felizes. Numa auto análise posterior acredito que a compra foi impulsionada por uma ilusão de que comer ovos de galinhas felizes me deixaria mais feliz. Faz sentido.

Voltei do mercado pensando no meu privilégio que me leva sim pra um lugar de possibilidade de agir contra aquilo que não acho correto ou saudável em todas as instâncias. Eu poderia ir além e nem consumir mais ovos, mas meu egoísmo inato e minha paixão por ovos não me permite abrir mão deste prazer. Comprar ovos de galinhas felizes então ameniza também minha culpa. Será que se eu rezar dez Ave Marias comendo os ovos amenizaria ainda mais? Vou tentar. E, confesso, fiquei feliz com a opção de comer ovos de galinhas felizes, mas, ao mesmo tempo toda essa reflexão aumentou minha ansiedade em criar galinhas felizes porque não sei até onde eu me sentiria realmente feliz consumindo ovos de ouro. E, repito, parar de comer ovos não é uma opção pra mim.

Chegou então o grande momento revelador. Coloquei os ovos de ouro pra cozinhar. Na hora de descascar é que vieram as surpresas escondidas naquela casca feliz. Normalmente quando descasco os ovos produzidos em larga escala eu sempre sei que não estarão podres e serão impecavelmente ovais ( ovos publicitários ), afinal são ovos. Pois é, o ovo chama ovo por que é oval ou é a forma oval que é uma homenagem ao ovo? Pergunta muito mais pertinente do que querer saber quem veio antes, o ovo ou a galinha. Enfim, o fato é que o ovo de ouro da galinha feliz – chocada – foi o ovo cozido mais IMperfeito que eu já vi nessa vida. Cozinhei seis e todos apresentaram formas cozidas não perfeitas. Podem estar pensando: “Ah Maira, mas tem ovos de galinhas infelizes que também ficam assim quando cozidos.” E eu te peço: só implique com a minha narrativa se você se identifica com a galinha infeliz.

Observando a relação entre a felicidade e a imperfeição me senti aprendiz diante da galinha sábia. A verdade é que eu nem sei o que a galinha acha da felicidade ( supondo que galinhas pensem ), nem tampouco se ela deseja isso ou apenas aceita seu papel e segue seus instintos primitivos ou se submetem naturalmente a qualquer situação imposta pelo humano ignorando completamente os esforços dos humanos que acham que elas são de fato mais felizes porque vivem livres. E, pensando nisso, vejo um paradoxo entre a importância de deixar as galinhas livres para serem mais felizes e domesticarem outros animais dentro de casas e apartamentos. Se as galinhas são mais felizes vivendo entre galinhas e livres, porque gatos e cachorros são mais felizes sem seres da mesma espécie confinados no mundo humano? Será que, na verdade, esse comportamento está mais relacionado à nossa carência e solidão do que a felicidade dos animais domésticos em si? Por quê humanos preferem adotar animais do que adotar humanos? Essa equação nunca fecha pra mim. Mas, vamos falar de galinhas felizes ao invés da infelicidade humana. Observar esses ovos cozidos me fez realmente pensar no fato da felicidade e liberdade não gerarem, como talvez se idealiza, perfeição. A liberdade, de certa forma, nos tira das formas sejam elas ovais ou quadradas. Ser livre nos permite um “esparramar-se”, nos faz aceitar a desuniformidade de quem somos e do mundo onde habitamos. 

Vejo claramente semelhanças entre as galinhas que produzem em larga escala quando confinadas e aqueles humanos que dedicam sua vida a trabalhar incessantemente dentro de um espaço físico limitado e solitário. Ambos estão confinado, recebendo migalhas, com o objetivo de produzir em grande quantidade algo pra alguém consumir e, no fim, ambos são abatidos ou adoecem. Se adoecem antes de serem abatidos nem pra consumo servem mais, sendo então descartados. Não é meu caso, mas fico pensando o quanto é simbólico você ter esse estilo de vida e defender uma melhor qualidade de vida para os animais. Você salva os animais do sofrimento, mas continua você mesmo vivendo em confinamento de abate. Seria uma compensação com você mesmo? Salvar o que está fora é sempre mais fácil. Será que não estamos sendo hipócritas quando agimos assim? E como deixar de ser? Qual é o equilíbrio entre respeitar as naturezas humanas e animais e preservar o meio ambiente?

As galinhas felizes dos ovos de ouro nos alertam: não adianta comprar os ovos de ouro e continuar confinado na cegueira neoliberalista. Não adianta ser vegano pra salvar as galinhas e querer impor suas opções esquecendo das suas imperfeições e das suas próprias incoerências. Uma galinha feliz nem deve buscar a felicidade, talvez seja esse o segredo de botar ovos de ouro naturalmente imperfeitos.

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